Revista Brasil de Literatura

Ano I - 1998


Lançamentos de livros

 


 

 

 

Retrato e Percurso: imagem e caminhos da poesia

 

 

A quantidade de livros de poesia que têm sido publicados nos últimos tempos deixa no ar uma esperança. A idéia é que, na quantidade, sempre sobra alguma qualidade. Em outras palavras, quanto mais poemas publicamos, mais civilizados nos tornamos. Nesses tempos em que a força se coloca do lado dos pragmáticos (economistas oficiais e seus derivados), uma boa aragem de poesia tende sempre a recolocar as coisas nos devidos lugares, ao construir utopias como só ela -- a poesia -- sabe fazer.
O livro Retrato e Percurso participa desse movimento. Seu compromisso com esse processo civilizatório é claramente colocado. De uma certa maneira, o poeta busca fazer de cada poema uma aguda visão de seu país e o exercício das possibilidades infinitas de sua língua.
Alckmar Luiz dos Santos é professor de Literatura Brasileira da Universidade Federal de Santa Catarina. Mas, ao contrário do que se poderia supor, não foi o ensino de Literatura que o levou à poesia, mas esta que o levou ao ensino. Para tanto abandonou uma carreira de engenheiro eletrônico, para se dedicar tão-somente à literatura, mostra de que, em matéria de poesia, o pragmatismo não tem vez.
De toda maneira, o rigor geométrico que se nota nos versos não deixa de remeter a esse passado exato do poeta. Mas é tributo que ele paga com prazer, pois essa exatidão se coloca apenas a serviço da poesia. E se trata de poesia que quer, obsessivamente, enfatizar a visão de si e de seu país. Cada poema busca, na tradiçao literária, armas com que expressar nossa língua e nossa condição brasileira.
A primeira parte do livro se chama "Retrato falado da terra distante". São poemas feitos, na maioria, durante os quatro anos que o poeta passou em Paris. Retomando o gesto de um Oswald de Andrade, Alckmar Luiz dos Santos usou as alturas da torre Eiffel para melhor enxergar o Brasil. E nosso país é visto e expresso a partir de sua região, o Vale do Paraíba, em São Paulo, alçado à condição de retrato do Brasil inteiro, parte que vale pelo todo. Os poemas, então, ajustam-se como peças de mosaico, trazendo paisagens, sotaques, costumes, o futebol, as pessoas, num retrato que fala de sua e de nossa gente.
Na segunda parte do livro, "O percurso do jogo", o futebol é o fio condutor do poema, retomando e modernizando a tradição das epopéias clássicas (o subtítulo do poema é "epopéia ludopédica"). No caso, trata-se de abrasileirar ainda mais o futebol (como se isso fosse possível), recusando de forma brincalhona o inglês importado no nome do esporte (foot-ball), para iluminar certo sotaque clássico que vem no "ludopédio" (em bom vernáculo, significa jogo com os pés). Assim, histórias e personagens de nosso futebol se misturam, num ritmo fortemente marcado. Embora apresente aparência de prosa, a construção poética de "O percurso do jogo" se impõe desde a primeira leitura e resgata, através desse esporte, retalhos e vozes do que poderia ser a alma brasileira.


Pedidos:

Editora da UFSC - Campus Universitario da Trindade - 88040-900 Florianopolis SC

Preço: R$10,00


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