Se me explico...

 

 

Como todo trabalho, este tem a sua história, que pode ser também a sua melhor explicação.

Desde a década de 70, tenho tentado, nos meus estudos de literatura, dedicar uma especial atenção aos papéis destinados à mulher nos mundos imaginários construídos por nossos ficcionistas. Tal preocupação, naqueles anos, nascia juntamente com a proliferação das idéias feministas entre as minhas alunas de Letras. Eu procurava trazer para a sala de aula a discussão de forma a alimentá-la do fermento crítico, sem o qual tudo não passaria de consignas políticas, sem densidade humana e sem eficácia epistemológica.

De lá para cá muitas coisas mudaram de figura nesse vasto mundo das idéias e na ordem das prioridades políticas. Entretanto, o tema da construção da imagem da mulher no imaginário social nunca deixou de exercer um particular fascínio sobre minhas indagações e minha prática pedagógica. Talvez mesmo o fato de a maioria de meus alunos de Letras ser constituída por mulheres tenha alimentado minha inquietação teórica por essa via.

Quando me propus a enfrentar um doutoramento em História Social das Idéias, na Universidade Federal Fluminense, o tema que se impôs, sem sombra de dúvida, foi relacionado à mulher no romance brasileiro. A idéia inicial de tese que eu alimentava, sobremaneira pretensioso, era um estudo da construção da imagem da mulher ao longo do desenvolvimento de nosso romance no século XIX. Tão pronto comecei o trabalho de investigação, pude dar-me conta da enormidade do material disponível e da impossibilidade de estudá-lo, mesmo no prazo de cinco anos de que teoricamente dispunha. As limitações foram se impondo, no ritmo que a pesquisa ia assumindo e que as dificuldades terminavam por aconselhar.

Cheguei logo a uma certeza: não havia como trabalhar com um objeto extenso e, ao mesmo tempo, proceder a uma análise de profundidade. Impunha-se um corte radical tanto nas pretensões, quanto no corpus a ser estudado. Nessa altura, eu já havia escrito e publicado vários ensaios e artigos sobre outros autores que não Alencar e Machado, mas a possibilidade e o desejo indicavam que a concentração nesses dois gigantes era não só o caminho viável, mas a vertente mais fecunda para o trabalho, já que eles, em suas obras, sintetizavam dois tipos de imaginário correntes na cultura brasileira da época.

Isto posto, a constituição do corpus emergiu da própria lógica dos estudos até então realizados. A leitura de textos constitutivos da teoria da história contemporânea, em especial os dedicados à chamada História das Mentalidades e os atinentes à História Cultural, marcou uma rota de preocupações, cujas respostas encontravam-se em determinados exemplares de romances que, de forma mais cabal que outros, expunham a construção, competente e detalhada, de determinados mundos imaginários.

Em Alencar, os três Perfis de Mulher, como ele os chamava, impunham-se, desde logo. Assim Lucíola, Diva e Senhora, como expressões do romance urbano eram leituras indispensáveis. Mas, ao lado destas mulheres da cidade, surgia uma imagem de mulher nascida dentro da mata atlântica, expressando um conceito de natureza, belo na sua novidade e fundamental na sua dimensão de cultura. Iracema tinha que ombrear-se com suas irmãs civilizadas, para impor, ainda melhor seu reinado no imaginário da Nação. Com estes quatro romances atingia-se, com segurança, o arquétipo feminino que José de Alencar lutou por construir e para impor no cenário de nossa vida cultural.

Machado de Assis foi um pertinaz e paciente desconstrutor de mitos. Toda a sua força criadora esteve sempre voltada para a análise e desmitificação dos arquétipos criados pelos ficcionistas românticos. Ele percebeu, desde logo, que tais figuras, e em especial as de mulher, ali estavam para cimentar e consolidar determinadas expectativas sociais e políticas, com as quais ele, absolutamente, não concordava. Tratou de descer a mulher do trono inacessível em que a colocara Alencar e fê-la descer para o pó da vida e tisnar a sua decantada pureza na pequenez dos pecados de cada dia. Não construiu um mundo de bacanais, nem um antro de perdições; apenas nos ofereceu mulheres de carne e osso, capazes de assumir um corpo e os desejos dele constitutivos, sem nunca cair na grosseria e na exaltação gratuita de uma genitalidade mal resolvida. Aliás, nele não encontramos nunca uma única cena de aproximação física entre homens e mulheres. Tudo se passa no plano das relações públicas de sociabilidade. Mas, daí, ele aponta suas baterias retóricas contra tudo que lhe pareça falso e cediço e parte para uma crítica radical dos valores que sustentam o edifício ideológico dominante.

Assim, sua trilogia básica - Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba e Dom Casmurro -; é presença indispensável para uma visão de conjunto de seu imaginário, principalmente no que diz respeito à questão do casamento e do adultério. Ao lado deles, escolhi a presença de Helena, como forma de confrontar os livros famosos com uma produção da chamada primeira fase do mestre. E, nesta, a escolha recaiu naquele romance que, ao que eu saiba, foi o primeiro em nossas plagas a abordar a problemática das relações jurídicas. Assim, ao lado do imaginário cotidiano, em que as personagens vivem as instituições, surge um texto em que as próprias instituições são o tema central da trama.

Com isto o corpus se completa e encontra sua principal justificativa: ele permite uma visão extremamente abrangente de dois imaginários básicos na constituição do panorama cultural e social do nosso século passado. A argumentação de que outros livros poderiam igualmente conduzir ao mesmo resultado tem fundamento e apenas reforça a minha escolha pessoal. Se há vários caminhos capazes de conduzir ao mesmo destino, sempre é melhor o que nos dá maior prazer. E estas obras acompanham-me há muito tempo e fazem parte mesmo de minha pessoal mitologia. E tal convívio, quando pouco, permite a segurança de uma análise nascida de uma intimidade longamente cultivada.

Uma pequena achega de ordem filológica aqui se impõe. As citações, ao longo do trabalho, respeitam integralmente as edições com que trabalhei. Isto faz com que haja, entre autores diferentes, grafias conflitantes. Assim, se minha citação não deu certo, sua vista que entortou...

De outra parte, houve um esforço consciente no sentido de deixar que a obra literária falasse, buscando-se sempre ocultar qualquer erudição que não fosse indispensável. O importante para o meu leitor é o que tais romances possam dizer-lhe e não a eventual ilustração de quem escreve. Sei que, fazendo isto, coloco-me na contramão dos estudos acadêmicos contemporâneos. Mas é exatamente esta a minha intenção explícita.

O diálogo com tais obras conduz à construção de um panorama amplo a abrangente, resultado de uma longa discussão sobre a literatura e a cultura brasileiras. Como muitos são os partícipes de tal mesa-redonda à distância, escrever o texto citando-os, a cada passo, seria condenar-me ao tédio antecipado dos leitores. Dialogo com todos, provocando a uns, discordando de outros, devendo muitíssimo a poucos. Estão todos relacionados nas bibliografias que acompanham o volume e constituem a minha forma de público reconhecimento de que, sem as suas idéias, as minhas não teriam encontrado um solo adubado para medrarem. Parti deles, com eles viajei léguas de desbravamento e com eles seguirei ao longo dessa jornada, que espero suficientemente longa para novas aventuras.

O bom leitor saberá, a cada passo, a quem estou cutucando com vara curta e a quem estou rendendo preito. Seria extremamente deselegante andar por aí, mostrando com um dedo intrometido, em cada parágrafo, o meu interlocutor preferencial.

E isto, na hipótese otimista de que tal diálogo fosse sempre plenamente consciente. Mas, inconsciente que seja, sempre é diálogo. Pois estou que não há discurso sem orientação para o outro, desde que, há muitos anos, descobri o pensamento de Mikhail Bakhtin, sedutor, porque modesto, e extremamente inovador, porque anti-dogmático na sua própria construção. Devo-lhe, inegavelmente, o arcabouço teórico da análise dos discursos com que pretendo ter desbravado algumas trilhas importantes para a melhor compreensão de nossa literatura e de nossa história nos anos oitocentos e &emdash; quem sabe?&emdash; nos dias de hoje. Aos outros, ainda que deva muito, certamente, devo menos. Estes, espero que se sintam quitados com os créditos bibliográficos, caso contrário sentir-me-ia tentado, como o narrador de Brás Cubas, a dar-lhes um bom piparote. Que, com ser um gesto moleque, tem a vantagem de desobrigar-me de cansativas e infecundas pendengas acadêmicas, já que, como questão de princípio, acredito que as idéias podem até ter pais, jamais proprietários.

Quanto às bibliografias vale dizer que incluíram-se a de obras citadas, uma sobre Alencar e outra sobre Machado, como prometido. Uma quarta, de que constam as obras consultadas, aí comparece por razões de ordem acadêmica. Ela deve espelhar o conjunto de livros responsáveis pela formação teórica básica, que sustenta as teses defendidas, bem como o conjunto de informações que foram capazes de permitir a formulação do trabalho. É uma dívida assim quitada.

Do confronto das minhas análises, surge um quadro muito claro das contradições da sociedade brasileira da segunda metade do século XIX e, principalmente, de como eram elas vividas. No imaginário, não temos nunca as instituições na sua descarnada objetividade jurídica, mas sempre a forma como elas conseguem ser vividas e sentidas pelas pessoas que a elas estão, queiram-no ou não, submetidas. Viajando pelos mundos imaginários de José de Alencar e de Machado de Assis, o que se está fazendo, na verdade, é ingressar sem convite em festa alheia. Somos visitantes penetras na vida e nos sofrimentos dessas criaturas que, construídas pelo discurso, nem por isso nos comovem menos que outras, cuja carnalidade e presença muitas vezes impedem uma aproximação tão fecunda. Passamos a viver vicariamente nessa sociedade e entender-lhe, então, os mecanismos mais sutis que dão movimento ao exercício do cotidiano. Seguramente saímos de tal experiência sem a clareza teórica dos grandes sistemas, mas infinitamente mais ricos em termos de vivências humanas. E isto alimentará um pouco a esqualidez conceitual das explicações definitivas e arejará, o seu tanto, a atmosfera rarefeita dos modelos lógicos.

O objetivo deste trabalho está longe das pretensões sistemáticas e das respostas definitivas aos problemas que levanta. Ao contrário, ele pretende apenas, é já é muitíssimo, acrescentar um pouco de emoção e de vida humana à compreensão que temos da sociedade que nos antecedeu e de que somos ainda credores e herdeiros. Tentei ver, em cada dobra retórica, uma fresta por onde pudesse enfiar a minha insaciável curiosidade e lobrigar algum comportamento impublicado &emdash; não por impublicável, mas por preconceitos ideológicos enraizados . Trazer à luz essas formas de ser e de viver, iluminar todos os recantos desses mundos imaginários, perceber as trajetórias das paixões &emdash; ainda que inconfessáveis &emdash; dessa gente de discurso, entender como a sociedade era sentida na pele de cada um, estes foram os meus objetivos permanentes. Se os atingi, apenas o leitor tem competência para decidir.

A construção obedece, com alguma lógica, a um plano expositivo que pode ser resumido, de forma muito geral, em quatro partes de dimensões desiguais. A primeira compreende uma exposição sistemática das idéias teóricas que pretendem guiar as análises posteriores e uma análise do contexto cultural de que emergem as obras trabalhadas. É a parte mais engravatada do livro, tendo mesmo algumas vezes deslizado para um certo tom didático, resultado mais dos vícios profissionais do que de uma decisão consciente do autor. A segunda e a terceira partes, mais descontraídas, reúnem as análises feitas sobre os romances de José de Alencar e de Machado de Assis e constituem o corpo do ensaio. As peças que as compõem, se têm vida própria umas relativamente às outras, estão amarradas por um mesmo fio condutor que lhes garante um mínimo de unidade. Tudo está trabalhado com uma intenção invariável e obedecendo, sempre que possível, a uma sistemática de abordagem equivalente. A quarta parte é a das conclusões, que se construíram de uma forma pouco ortodoxa. Comecei por uma recapitulação das análises, mas agora amarrando-as umas às outras, de forma a evidenciar a coerência de método e a validade dos resultados obtidos. Em seguida adentrei pela construção dos mundos imaginários de Alencar e Machado, de forma a evidenciar seu contraste e apontar para uma problemática mais ampla da cultura brasileira. Mas apontar apenas, já que o seu desenvolvimento daria material para um outro livro.

O trabalho da escrita, entre outras surpresas, revelou a mim mesmo algo que não suspeitara, antes de iniciá-lo. Quando dei por mim, muitas e muitas páginas já redigidas e "prontas", o texto tinha assumido um movimento e um ritmo perfeitamente definidos. Eu estava parindo, sem sabê-lo, um texto em forma de Sonata. Depois de uma longa Ouverture , surgiu-me um Allegro ma non troppo , em que o texto mantém um ritmo seguro entre o alegre e o já ralentando; um Andante con spirito segue desenvolvendo, em outra clave e em outro ritmo &emdash; mais lento! &emdash;, temas sugeridos no Allegro; nas conclusões, uma longa recapitulação polifônica das linhas melódicas dos dois movimentos anteriores constitui um Adagio espressivo, em que se retece, em conjunto sinfônico e em outra partitura, aquilo que fora antes linha melódica isolada; uma breve e incisiva Coda conduz o texto ao destino de todo discurso: o silêncio. Mas sem fanfarras e timbres metálicos, antes pelo pianíssimo que já se vinha anunciando, nos acordes do Adagio.

Assim, sem que eu o houvesse planejado, o texto escapuliu-me a fazer travessuras musicais que terminaram por se constituir numa das maiores gratificações do trabalho. Entretanto, uma vez percebido o movimento, algo de tirânico se impôs: cuidar de manter a harmonia do todo, sem sacrificar o projeto analítico. Desconheço o alcance de tais cuidados, mas eles, pelo menos na última terça parte do livro, constituiram-se na guia mestra da redação. Talvez isto possa ter dado ao texto conotações que não estavam previstas, mas ao autor proporcionaram inegáveis momentos de satisfação.

No mais, o livro aí está, na sua nudez necessária, para ser lido e julgado. Não espero complacência, pois ela de nada me valerá contra as muitas imperfeições que ele carrega e contra os próprios defeitos de sua concepção. A crítica, se contundente, ensinará melhores caminhos; se instigadora, provocará novos rebentos. Só o silêncio será o indício de que o trabalho não soube ferir as teclas da sensibilidade e, nesse caso, a culpa será inteiramente do meu modo desajeitado de ser e de escrever.

Mas, sem esta aposta, valeria a pena gastar o meu tempo e despediçar o alheio?

 

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