ENTREVISTA DE GUIMARÃES ROSA A ASCENDINO

MOSTRA AMOR À LÍNGUA

 

 

 

Luiz Antônio Mousinho Magalhães

Doutorando na Unicamp e bolsista da Fapesp

 

 

Acaba de ser lançado pela Editora da UFPB o livro Ascendino Leite entrevista Guimarães Rosa, de autoria da professora e pesquisadora Sônia Maria van Dijck Lima, que organizou o volume (Edufpb, 1997, 84 páginas, R$15,00). O volume traz uma das raras entrevistas concedidas pelo genial escritor, numa edição primorosa, super bem cuidada, desde seu conteúdo até aos aspectos visuais e gráficos.

 A charmosa edição vem em papel pólen (aquele discretamente amarelinho) e em ilustrações em cores das cinco primeiras edições de Sagarana, clássico do conto brasileiro e primeiro livro do autor, que inclui "A hora e vez de Augusto Matraga", "O burrinho pedrês", "Sarapalha" e outras obras primas do conto em língua portuguesa. O livro reúne ainda fotos de Guimarães, de Ascendino, de folha de rosto de Sagarana ainda com título provisório (Sezão), além de fac simile de trecho do conto publicado em jornal, nos idos de 1930 (Machiné). Trata-se de documentos garimpados no Instituto de Estudos Brasileiros da USP, e nas bibliotecas do professor Aderaldo Castello e do bibliófilo José E. Mindlin.

Na primeira parte do livro, a organizadora discute aspectos da obra de Guimarães, sobretudo trazendo à tona vários dados sobre a gênese de Sagarana, em suas várias etapas. Na apresentação, Sônia van Dijck prefacia ainda a entrevista propriamente dita e nas terceira e quarta partes, traça, respectivamente, minuciosa cronologia da vida e obra de Guimarães e delineia perfil biográfico de Ascendino.

Na segunda parte do livro, tem-se a verdadeira pérola que é a entrevista. Nela são recriados gestos e climas do encontro entre o jornalista e o escritor, acontecido em maio de 1946. O narrador/ entrevistador se mostra arguto, provocador, como é mesmo dito na introdução da obra.

Quanto às respostas... Bom, no mínimo pode ser dito que a fala de Guimarães é assombrosa. É de uma tal beleza o que ele diz, a maneira como ele diz, que é duro acreditar que não se trate de um texto escrito, outras flores de sua prosa poética. As sonoridades encantatórias da mina de Rosa se constroem ali mesmo, na fala da hora - e pouco mais de uma hora leva a entrevista. Nas nervuras da palavra, ele vai traçando então seu estonteante amor pela língua portuguesa, pelas línguas do mundo, pelas falas das gentes. Sua paixão intensa em olhar as coisas e trazê-las à flor da linguagem nas dobras das palavras.

Lembrando a infância, Guimarães explica o nome da sua Cordisburgo, ressalvado seu tom tão Brasil, apesar da sonoridade estrangeira ("meu burgo é bem Minas, Brasil de dentro, no rochedo do osso, na agüinha de coco "). Recordando brincadeiras de infância, revela o desvio dos cursos de rios inventados a partir dos fiozinhos dágua escorridos dos tanques das lavadeiras. E o batismo dado a eles, São Francisco, Danúbio e Sapakrallal, este último nome inventado já em criança pelo futuro escritor inventa-línguas. Escritor que viria, na entrevista,a deplorar o empobrecimento da língua desde as suas manifestações mais "micro" ("quando penso que havia um bichinho de pêlo rico que se chamava Œtalpa e passou a chamar-se Œtoupeira..."). Revelando gostar de alguns autores desleixados, "apesar do desleixo", Guimarães Rosa afirma que em relação à literatura fecha questão quanto ao estilo ("É melhor brincar com estas palavras bonitas: malga, marna, marga, tagra, lala, granja, plaga, barda, dal"). Assim, combatendo o relaxamento da escrita, opta também pela fala da gente capiau que "com o vocabulário, involuntariamente escasso de que dispõe, gosta da ostentação, da opulência, de beleza, de inventar nomes".

No livro, enfim, isso e muito mais coisa, como algo da concepção de regionalismo do escritor, sua percepção da natureza como personagem, a derrota de Sagarana em concurso literário e revelações de Rosa sobre técnicas de voltar e caminhar pela infância uma ou duas horas por dia...

Amor e humor - paixão de morrer pelas coisas do mundo, estão postos na fala e no perfil desse grande artista. E estão postos neste livro oportuno e bonito.


 

(Publicado no Correio da Paraíba, João Pessoa, 5 dez. 1997. "Cultura", p. 6)


 

Endereço para pedidos do livro:

LIMA, Sônia Maria van Dijck (org.).

Ascendino Leite entrevista Guimarães Rosa. Ed. Universitária/ UFPB - Caixa Postal 5081 -

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Tels. (083) 216 71 47/ 216 71 48 - Fax (083) 216 74 89.

 


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